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CULTURA TRADICIONALISTA

 

Origen da Palavra Gaúcho

No início, quando toda a atividade se resumia à extração do couro do gado selvagem, os habitantes do pampa eram designados como guascas, palavra que significa tira de couro cru.
Só mais tarde, por volta de 1770, de acordo com o historiador argentino Emilio Coni, vai aparecer o termo gaudério, aplicado aos "aventureiros paulistas que desertavam das tropas regulares para se tornarem coureadores e ladrões de gado".

     Considerado pioneiro nas pesquisas sobre o tema, Coni afirma que a expressão "gaúcho" torna-se corrente nos documentos a partir de 1790 como sinônimo de gaudério e também para designar os ladrões de gado que atuavam nos dois lados da fronteira.
O pesquisador uruguaio Fernando Assunção informa ter encontrado em 1771 uma correspondência ao governador Vertiz, de Buenos Aires, pedindo providências contra "alguns gahuchos" que andavam assaltando estâncias e roubando na região.

     Uma coisa é certa: até a metade do século dezenove, o termo gaúcho era ainda depreciativo, "aplicado aos mestiços de espanhol e português com as índias guaranis e tapes missioneiras". Saint Hilaire, nos seus minuciosos apontamentos de 1820, ainda menciona "esses homens sem religião nem moral, na maioria índios ou mestiços que os portugueses designavam pelo nome de Garruchos ou Gahuchos".

     Quanto à origem da palavra, há muitas divergências. Alguns autores afirmam que o termo gaúcho vem do Guarani. Significaria "homem que canta triste", aludindo provavelmente à "cantilena arrastada dos minuanos".

     A maioria dos autores rio-grandenses, no entanto, aceita outra explicação: seria uma corruptela da palavra Huagchu, de origem quêchua, traduzida por guacho, que significa órfão e designaria os filhos de índia com branco português ou espanhol, "registrados nos livros de batismo dos curas missioneiros simplesmente como filho de fulano com uma china das Missões", de acordo com Augusto Meyer.


A Cozinha Gaudéria

A cozinha gauchesca é rica, variada e desconhecida. O gaúcho campeiro é essencialmente um devorador de carne, com pratos preparados com carne de boi, ovelha, porco e galinha, com exceção do morador da região litorânea, e evidentemente na Semana Santa, quando são feitos os pratos à base de peixes, e o gaúcho se tornapescador em rios e lagoas, visto que de quarta-feira em diante, nesta semana, substitui a carne pelo pescado, retornando às suas origens alimentares com o tradicional cordeiro assado no Domingo de Páscoa.

     A cozinha gaúcha conta com mais de uma centena de pratos típicos, sofrendo a influência da colônia alemã e da italiana. Curiosamente,não existe relação com a culinária de origem portuguesa, indígena ou castelhana.

     Apesar de rica e variada, não podemos nos esquecer que este era oalimento do gaúcho de bota, bombacha e cavalo na dura lida campeira. Hoje, grande parte dos gaúchos trocou o "pingo" pelo automóvel, o laço do dia a dia pelo esporte no piquete de laçadores, a atividade de carnear pelo balcão do açougue, e fizemos a terrível descoberta do colesterol...

     Não é o caso de um gaudério como eu, que alço a perna na cadeira estofada, preparo o meu teclado e rodo o mundo na internet... então o velho ditado: "Todo excesso é perigoso"... reserve esses quitutes para os finais de semana, sempre regado ao bom mate.

     Para aqueles que já sentem o peso da idade, ou que se emocionam quando ouvem a música "Veteranos", cuidado, é bom ler também o texto bem retratado na poesia "Penúltima China" do grande Antônio Augusto Fagundes, onde em certa estrofe diz: "... e adeus canha do bom tempo... de cigarro, nem te falo... não mais pular a cavalo, agüentar uma briga... agora é dor de barriga, pressão alta, desconforto, míope, vesgo ou torto. Não come churrasco gordo, nem chega perto do sal, la pucha que no final, o homem, velho animal, é o mesmo que um burro morto...


O que é um CTG

 Os Centros de Tradições Gaúchas ( CTG ) são sociedades sem fins lucrativos, que buscam divulgar as tradições e o folclore gaúcho. É um local de integração social dos tradicionalistas.

     Nestas entidades, a maioria dos trabalhos é voluntária. Nos fandangos, almoços e jantares toda a preparação fica a cargo das famílias dos associados, desde o churrasco até o arroz carreteiro. Nos CTG's acontece o encontro de gerações, pois convivem netos, pais e avós. Ali se ensina, se aprende, se trabalha e se diverte. É o local de fandangos (bailes), de churrascadas, sarau de prendas, etc.

     Esse convívio de gerações ajuda a melhorar o relacionamento entre pais e filhos, a desenvolver o respeito e também a responsabilidade, aprender o que é a hospitalidade e a solidariedade e despertar o civismo e o amor à Pátria.


Fogo de Chão

As longas noites de inverno, nas primitivas tribos indígenas levaram os nativos a descobrir o "Fogo de Chão". Próximo de suas ocas construíam locais onde as famílias reuniam-se ao redor do fogo.

     As brasas incandescentes eram um verdadeiro convite para o doce aconchego, quando o frio parecia congelar o ideal, a vida e o próprio tempo.

     As lidas campeiras passaram a ser o tema central, enquanto o chimarrão corria de mão-em-mão. O "Fogo de Chão" aquecia o sentimento nativo do mestiço, projetando-se o ideal campeiro do gaúcho e isso foi passado de geração para geração. Ao redor do "Fogo de Chão", nas rodas de
chimarrão, foram tomadas grandes decisões históricas do Rio Grande do Sul.

     A convivência galponeira é tão tradicional no Rio Grande do Sul, que numa fazenda chamada Boqueirão em São Sepé, um "Fogo de Chão" é mantido aceso há mais de duzentos anos. A fazenda Boqueirão fica no distrito de Vila Block, município de São Sepé a 260 km de Porto Alegre. O fogo é alimentado por toras de madeira de lei chamadas guarda-fogo ou lenha de combustão, o que permite que a chama se mantenha acesa enquanto todos dormem. A história conta que este
fogo foi aceso por um índio charrua ou por um negro escravo e mantido ao longo do tempo devido inicialmente às dificuldades de se fazer fogueiras, e, posteriormente como forma de ver-se mantidos os caprichos do Patrão. A chama acesa arde constantemente num galpão com estrutura de 1818, tornando-se hoje centro de romarias nativistas e tradicionalistas.


O Laçador

      O Monumento "Laçador" foi criado por Antonio Caringi, inaugurado em 20/09/1958, no Largo do Bombeiro, em Porto Alegre - RS, tendo por modelo Paixão Côrtes. Este monumento possui 4,45 metros e está assentado num pedestal de granito, totalizando 6,55 m e pesando 3,8 toneladas.

     João Carlos D'Avila Paixão Côrtes, nasceu em 12/07/1927 em Sant'Ana do Livramento - RS, é engenheiro agrônomo, mas tornou-se mundialmente conhecido como estudioso da Tradição Rio-Grandense, com um sem número de trabalhos aprovados em Congressos Tradicionalistas, sendo o maior divulgador da tradição gaúcha na América do Sul.

     Paixão Côrtes iniciou cedo pesquisas do folclore rio-grandense, registrando com gravadores, filmadoras e máquinas fotográficas todo o rico material da cultura do homem campesino gaúcho. Pesquisa essa que estendeu-se até peças originais de museus como o Louvre, de Paris, do Museu do Trajo Português, de Lisboa, Museu do Prado, de Madri, Museu Militar, da Escócia, Victória and Albert, de Londres, e tantos outros da América do Sul.

     Paixão Côrtes é o se que pode chamar de tradicionalista de primeira Hora, visto ter sido integrante do "Grupo dos Oito", que fundou o "35 - CTG" em 1948, que foi o primeiro CTG fundado, originando daí todo o Movimento Tradicionalista do qual fazemos parte com tanto orgulho.

     É criador dos símbolos da "Chama Crioula", do "Candeeiro Crioulo" e da "Semana Farroupilha".

     Em 1953, fez nascer o famoso conjunto folclórico "Tropeiros da Tradição", iniciando assim uma nova era profissional na projeção folclórica das danças e temas nativos. Na área discográfica atuou em 7 (sete) long-plays cantando, com os quais recebeu prêmios como, melhor Realização Folclórica Nacional (1962) e melhor Cantor Masculino do Folclore do Brasil (1964).

     Como comunicador, Paixão Côrtes tem mais de 40 anos de dinâmica atividade, atuando em conceituados programas de rádio Rio-Grandenses, sendo o criador, com Darcy Fagundes do famoso "Grande Rodeio Coringa" em 1955, programa esse que reformulou a programação gauchesca de auditório do Rio Grande. Paixão Côrtes é responsável também pelo surgimento de "Festa de Galpão"(1953), "Festança da Querência"(1.958), "Domingo com Paixão Côrtes" e "Querência", estes dois últimos em plena vigência na rádio Guaíba.

     Atuou como consultor de costumes e revisor de texto para a televisão e cinema. E como ator encarnou o expressivo Pedro Terra no filme "Um Certo Capitão Rodrigo", dirigido por Anselmo Duarte, baseado no romance "O Tempo e o Vento" de Érico Veríssimo.

     Como bailarino e cantor, Paixão Côrtes viajou oito vezes para a Europa, atuando na mais famosa casa de espetáculos européia, no Olimpia de Paris, permanecendo cinco meses na França apresentando nossas danças folclóricas também nos palcos da Universidade de Sorbonne, Teatro
Mogador, Prefeitura Parisiense e outras casas noturnas. Atuou também na Alemanha, na "Feira Mundial de Transportes e Comunicações", em Munique, no "Cassino de Estoril", em Lisboa, e na "Feira Rural de Santarém", em Portugal.

     Em 1986 Paixão Côrtes retornou à Europa, distribuindo na Inglaterra e Escócia sua obra "The Gaúcho, Dances Costumes, Craftsmanship" impresso em inglês. Na BBC de Londres apresentou-se cantando e dançando temas gauchescos, acompanhado pelo conjunto musical "Os Farrapos" (Disco de Ouro / 1988).

     Foi conferencista no Arquipélago Açoriano Português em intercâmbio cultural entre "Ilhéus" e "Gaúchos".

     Cabe ressaltar que Paixão Côrtes não está vinculado a nenhuma instituição governamental, quer Municipal, Estadual ou Federal, nem recebe qualquer subvenção de qualquer órgão internacional.

     Quis a história que se fizesse justiça a esse gigante do tradicionalismo, eternizando sua figura no bronze do "Laçador" do qual foi modelo para o escultor Antonio Caringi, em 1954, imagem esta escolhida como símbolo de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul.


A Mulher Gaúcha

       As épocas são caracterizadas pelas idéias, as quais geram inúmeros acontecimentos. Não podemos sequer pensar, que, em cada período da história interfere uma única corrente ideológica, pois a evolução social não é linear.

          A história da humanidade constata a sujeição da mulher em relação ao homem, o que não anula a existência de mulheres, que se destacaram naquelas épocas remotas, nos mais diferentes setores das atividades sociais, muito embora, pouquíssimo se tenha registrado. Essa é a grande razão da sociedade falar em machismo & feminismo.

          O feminismo, como movimento organizado, surgiu de fato, na Revolução Francesa e a história da emancipação da mulher tomou vários rumos.

          Atualmente, a mulher abandona, cada vez mais, o galope dos cavaleiros andantes de um ideal meio lírico de libertação, vendedor de ilusões, para posicionar-se lado a lado dos homens na estrada da grande aventura empregnada de desventuras.

          A sociedade rio-grandense tem tradição machista, pois é originária de uma oligarquia militarizada, que demarcou fronteiras, através de lutas e de guerras.

          A formação da mulher, desde a mais tenra idade, é direcionada para cuidar dos afazeres domésticos, rezar, enquanto aguarda o casamento com o noivo, que era escolhido pelo pai.

          A liderança singular da mulher, como mola-mestra do lar, não pode ser anulada e tão pouco esquecida pela sociedade gaúcha, pois sua participação ativa sempre deteve a estrutura da família e da sociedade.

          Não podemos esquecer, que a mulher sempre trabalhou nas estâncias, assegurando a economia do Rio Grande do Sul, enquanto seu pai, esposo e filho saiu para defender as fronteiras e os ideais rio-grandenses.

          Dentre tantas grandes mulheres, que se destacaram no cenário Rio-grandense, em defesa das nossas fronteiras, destacamos a Marquesa de Alegrete: heroína anônima, nobre pampeana, que em 14 de janeiro de 1717, na Batalha de Catalan, ao lado do esposo Marques de Alegrete – Luiz Telles de Caminha e Menezes e do filho, ajudou a escrever, com sangue suor e lágrimas, a história das batalhas entre Portugal e Espanha, servindo como enfermeira, mãe e até soldado, na demarcação de fronteiras do nosso pago gaúcho.

          A participação da mulher foi de fundamental importância no contexto da formação histórica, social e cultural do Rio Grande.

          A Revolução Farroupilha colocou a mulher num encontro ingrato e arriscado com a vida, porém, por mais ameaçadoras, que se tenham apresentadas as circunstâncias, ela sempre soube manter-se firme: quanto mais a situação era adversa, mais a mulher soube se transformar na forja sagrada das convicções do herói farroupilha.

          A mulher guerreira ficou conhecida por "vivandeira", a "china de soldado", foi a mulher, que acompanhou as tropas em seus deslocamentos e permaneceu nos campos de combate cuidando do soldado.

          A mulher estancieira foi a mulher, que permaneceu na estância, administrando as lides campeiras e domésticas, tomando conta do lar, dos filhos, da estância e cuidando dos negócios do homem ausente, que rezava pelos vivos e chorava os mortos. Era, aos olhos de Deus e da sociedade patriarcal – a mãe, a esposa, a filha – permanecendo em casa, aguardando ansiosa o desfecho da guerra e o retorno do guerreiro.

          A história também registra a mulher farroupilha do decênio heróico, que foi a mulher que, de uma forma ou de outra, figurou na história oficial do decênio heróico. Dentre elas, citamos Anita Garibaldi (Ana Maria de Jesus). Mulher intensamente feminina, ativa, forte de ânimo, de decisões rápidas, uma exímia cavaleira, que despertou em Giuseppe Garibaldi um fortíssimo sentimento, mesmo nos poucos contatos, que tiveram em Santa Catarina, quando da invasão de Laguna pelas tropas farroupilhas, além de Maria Josefa da Fontoura Palmiro, que promovia reuniões políticas em sua casa, em Porto Alegre, em apoio a Bento Gonçalves e aos Farrapos, também defendia a libertação dos escravos e tantas outras.

          Muitas foram as heroínas desconhecidas, que lograram entrar na história, mas nem sequer seu nome é conhecido, como Caetana, esposa de Bento Gonçalves da Silva e Elautéria, mulher de Manuel Antunes da Porciúncula.

          Foi neste dificílimo momento, que o valor da mulher farroupilha foi testado, fazendo com que seu coração vivenciasse as inúmeras novas circunstâncias, levando a sujeitar-se às necessidades, aos infortúnios, mas ela foi competente em sua função, incansável no desempenho do seu papel. Encantadora e generosa, companheira, não se deixou arrastar por convicções derrotistas, deixando na história um admirável perfil, abrindo perspectivas esplêndidas de esperança para seu companheiro, com admiráveis e imprescindíveis fatores decisivos e determinantes da inacreditável persistência dos farrapos.

          A mulher farroupilha, com seu sentimento de compreensão e solidariedade, muito auxiliou o desenvolvimento da semente da República Rio-grandense, fazendo frutificar, em heroísmo, a alma da gente farroupilha. Ela soube avaliar e enfrentar o perigo, não para receá-lo e sim para combate-lo. Esta foi a mais sublime e valorosa lição feminina, raramente descrita com a merecida justiça e homenagem dos pósteros.

          A mulher sempre promoveu a mais iluminada unidade de fé, auxiliou a compor as mais importantes páginas da história gaúcha, em meio a grande destruição, acreditou e fez acreditar, que sempre se salva algo dignificante da vida.

          Inúmeras foram as heroínas anônimas, que, cuidando dos filhos, dos interesses familiares e da economia do Rio Grande, deram ânimo, apoio e acreditaram nos anseios farroupilhas.

          Voltando o olhar sobre nosso heróico passado, constatamos que, mesmo durante o dramático e sangrento decênio farroupilha, o homem nunca esteve só: a providência divina colocou ao seu lado uma grande auxiliadora e fiel companheira, que lhe foi idônea.

          Como vive atualmente a mulher gaúcha? Nós mulheres já paramos para pensar quantas profissões exercemos ao mesmo tempo? Será que nosso companheiro e esposo, filhos já imaginaram o que é ser, ao mesmo tempo, mulher companheira, mulher mãe, mulher profissional a buscar o seu espaço, mulher economista, mulher enfermeira a cuidar de seus filhos e familiares adoentados, mulher psicóloga a entender, a auxiliar, a dar ânimo ao esposo, ao filho, frente a situações do cotidiano, mulher doméstica nos afazeres do lar, mulher cozinheira a preparar o alimento para a família, mulher intelectual, mulher social, mulher telefonista, mulher política, tudo por conta dos inúmeros afazeres diários? Pois é isso mesmo, na volta das vinte e quatro horas do dia, uma única mulher exerce todas as profissões possíveis e imagináveis.

          O tradicionalismo prima por preservar, divulgar e cultuar a tradição gaúcha, ou seja, o patrimônio sócio-cultural desta sociedade com tradição machista.

          Mas a mulher gaúcha, com sua intuição feminina de simplicidade, sentimento materno e inteligência, soube conquistar seu espaço ao lado daquele que é considerado o "mais machista dentre os homens".

          A mulher tradicionalista está ao lado do homem tradicionalista a orientar, a administrar e a planificar o tradicionalismo gaúcho. A mulher tem contribuído e muito para o engrandecimento e fortalecimento dos princípios, da filosofia do tradicionalismo, do cumprir e fazer cumprir seus Estatuto e Regulamento, suas normas, ao desempenhar funções como Patrão, Coordenadora Regional, Conselheira e detentora de outros cargos tão importantes e decisivos na estrutura organizacional e administrativa do tradicionalismo gaúcho, no propagar, divulgar e cultuar a tradição do Rio Grande.

          É bem verdade, que somos uma minoria, mas por opção da própria mulher e não por imposição do homem tradicionalista.

          Em 1947, surgia a Ronda Gaúcha e a Chama Crioula, cujos idealizadores foram homens. Em 1948, eles idealizaram a primeira entidade tradicionalista do Rio Grande do Sul, que foi o "35 CTG", em Porto Alegre. Embora tenha rompido com grande sucesso, a presença feminina foi mais acanhada. A mulher custou muito a integrar-se.

          O grande e incansável companheiro Cyro Dutra Ferreira, em sua obra "35 CTG" – O Pioneiro do Movimento Tradicionalista, faz o seguinte registro: Somente em junho de 1949, aconteceu a primeira reunião com moças da sociedade, especialmente convidadas. Dela participaram: Maria Zulema Paixão Côrtes, Derce Paixão Côrtes, Suli Dutra Soares, Sarita Dutra Soares, Lory Meireles Kerpen, Íris Piva, Norma Dutra Ferreira, Nora Dutra Ferreira, Damásia Medeiros Steinmetz e Linda Brasil Degrazzia. Na reunião, foi apresentada e aprovada a proposta da criação da Invernada das Prendas, tendo sido nomeada como Posteira Lory Meireles Kerpen. Também foram convidadas Lia Eilert dos Santos e Cyra Eilert dos Santos, as quais não obtiveram permissão do "velho", que queria primeiro ver no que dava a coisa... De fato e de direito, as irmãs Marilia e Ludemilla Zarrans são consideradas as primeiras prendas do movimento, pois, em algumas oportunidades, foram as duas primeiras colaboradoras do "35". Também é registrada a presença da menina Verinha Simch Vieira, que por ser criança, tinha a permissão de descer para o porão, visto que seu tio Cincha participava das reuniões.

          A transformação política, social, econômica e tecnológica chegou ao Rio Grande do Sul, obrigando a mulher gaúcha, a prenda tradicionalista sair às ruas, em busca de melhores condições de sobrevivência, porém conservando intacto o seu sentimento pela tradição gaúcha.

          Como mulher partícipe da sociedade gaúcha, como mulher tradicionalista, como mulher profissional, mãe, dona de casa, tenho a convicção de que a mulher conquista tudo que desejar, sem colocar-se contra o homem, até porque seria um desperdício, mas colocar-se ao lado dele, conquistando, com galhardia e absoluto zelo, seu espaço, sua valorização pessoal e profissional, um lugar em que não precise falar em machismo & feminismo, baseado na autenticidade, na participação conjunta num mundo estruturado no amor e na paz social.


Oração do Gaúcho

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo;

e com licença Patrão Celestial.

 

Vou chegando,

enquanto cevo o amargo de minhas confidências,

porque ao romper da madrugada e ao descambar do sol,

preciso camperear por outras invernadas e repontar do Céu,

a força e a coragem para o entrevero do dia que passa.

 

Eu bem sei que qualquer guasca,

bem pilchado,

de faca,

rebenque e esporas,

não se afirma nos arreios da vida,

se não se estriba na proteção do Céu.

 

Ouve,

Patrão Celeste,

a oração que te faço ao romper da madrugada

e ao descambar do sol:

 

"Tomara que todo mundo seja como irmão!

Ajuda-me a perdoar as afrontas e não fazer aos outros o que não quero para mim".

 

Perdoa-me, Senhor,

porque rengueando pelas canhadas da fraqueza humana,

de quando em vez,

quase sem querer,

eu me solto portera afora...

êta potrilho chucro,

renegado e caborteiro...

mas eu te garanto,

meu Senhor,

quero ser bom e direito!

 

Ajuda-me,

Virgem Maria,

primeira prenda do Céu.

Socorre-me,

São Pedro,

Capataz da Estância Gaúcha.

Prá fim de conversa,

vou te dizer meu Deus,

mas somente pra ti,

que tua vontade leve a minha de cabresto pra todo o sempre

e até a querência do Céu.

Amém


Adágios Gauchescos

>>Abichornado...

- como urubu em tronqueira.

- viúvo que se deu bem em casamento.

 

>>Mais afiada...

- que língua de sogra.

- que navalha de barbeiro caprichoso.

 

>>Alegre...

- como lambari de sanga.

- que nem paisano a meia-guampa.


>>Amarga...

- como erva caúna.

 

>>Mais amontoado...

- que uva em cacho.

 

>>Mais ansioso...

- que anão em comício.


>>Mais apertado...

- que queijo em cincha.

- que bombacha de fresco.

- que rato em guampa.

 

>>Mais apressado...

- que cavalo de carteiro.

 

>>Mais arisco...

- do que china que não quer dar.


>>Assanhado...

- como solteirona em festa de casamento.

- como lambari de sanga.

- como ganso novo em taipa de açude.

 

>>Mais assustado...

- que cachorro em canoa

- que cavalo passarinheiro.

- guri em cemitério

 

>>Mais atirado...

- que alpargata em cancha de bocha.

- capataz de estância grande


>>Mais atoa...

- que guri no mato.

 

>>Atrapalhado...

- que nem cego em tiroteio.

- que nem sapo em cancha de bocha.

- feito discurso de turco

 

 >>Mais atrasado...

- que risada de surdo.


>>Babava...

- como boi com aftosa.

 

>>Tão baixinho...

- que quando peida levanta poeira do chão.

 

>>Baixo como...

- vôo de marreca choca.

- tamborete de china.

- umbigo de cobra.

- barriga de sapo.


>>De boca aberta...

- que nem burro que comeu urtiga.

 

>>Bom...

- como namoro no começo.

- como faca achada.

 

>>Bonita...

- que nem laranja de amostra.


>>Buliçoso...

- como mico de viúva.

- como gato de moça velha. Cara amarrada...

- como pacote de despacho.

 

>>Chato...

- como chinelo de gordo.

- como colchão de gordo

- que nem gilete caída em chão de banheiro.

 

>>Cheio...

- como corvo em carniça de vaca atolada.

- como penico em dia de baile.

- como barril de chopp em festa de crente.

- como bolsa de china.

- como mala de contrabandista.


>>Cheirando bem...

- como cogote de noiva.

 

>>Cobiçada...

- como anca de viúva nova e bonita.

 

>>Mais Colorida...

- do que bombacha de turco.


>>Mais comprido...

- que putiada de gago.

- que trova de gago.

- que esperança de pobre.

- que suspiro em velório.

- que cuspe de bêbado.

 

>>Mais conhecido...

- do que parteira de campanha.

- que feijão em cardápio de quartel

 

>>Mais constrangido...

- que padre em puteiro.


>>Contrariado...

- como gato a cabresto.

 

>>Coxuda...

- como leitoa no engorde.

 

>>Mais curto...

- que coice de porco.

- que estribo de anão.


>>Desconfiado...

- como cego que tem amante.

 

>>Devagarzito...

- como enterro de viúva rica.

 

>>Mais difícil...

- que nadar de poncho e dormir de espora sem rasgar lençol.


>>Dinheiro na mão de pobre é...

- como cuspe em ferro quente.

 

>>Dorme...

- atirado que nem lagarto.

 

>>Mais duro...

- que salame da colônia.


>>Engraxado

- que nem telefone de açougueiro.

 

>>Empacado...

- como burro de mascate.

 

>>Mais encolhido...

- que tripa grossa na brasa.


>>Enfeitado...

- como bidê de china.

- como bombacha de turco.

- como mula de mascate.

- como carroça de cigano.

- como quarto de china.

- como santo milagroso.

- como guaiaca de gringo.

 

>>Mais enrolada...

- que lingüiça de venda .

- que namoro de cobra.

>>Mais entravado...

- que carteira de sovina.

 

>>Esburacado...

- como poncho de calavêra.


>>Escasso...

- como pêlo em recavém de touro .

- como passarinho em zona de gringo.

 

>>Esfarrapado...

- que nem poncho de gaudério.

 

>>Esparramados...

- como dedos de pés que nunca entraram em botas.

- que pé de gringo.


>>Extraviado...

- que nem chinelo de bêbado.

 

>>Faceiro...

- que nem ganso novo em taipa de açude.

- como pica-pau em tronqueira.

- como mosca em tampa de xarope.

- como guri de tirador novo.

- como passarinho velho em gaiola nova.

- como lambari em poça d’água.

 

>>Mais fechado...

- que baú de solteirona.


>>Mais fedorento...

- que arroto de corvo.

 

>>Feia...

- como mulher de cego.

 

>>Mais feio...

- que indigestão de torresmo.

- que rodada de cusco em lançante.

- que briga de foice no escuro.

- que paraguaio baleado.

- briga de touro.

- facada na bunda

- tombo de mão no bolso.

- que sapato de padre.


>>Feliz...

- como pinto no lixo.

- como puta em dia de pagamento de quartel

- como milico em dia de soldo

 

>>Mais Fino

- do que assobio de papudo.

 

>>Firme...

- que nem palanque em banhado.

- que nem prego em taquara.

- como beliscão de ganso.


>>Folgada...

- como luva de maquinista, que qualquer um mete a mão.

- como peido em bombacha.

- como cama de viúva.

 

>>Mais por fora...

- que surdo em bingo.

- que cabelo de côco.

- que cotovelo de caminhoneiro.

 

>>Mais forte...

- do que peido de burro atolado.

- que porteiro de cabaré.


>>Frio...

- de empedrar água do poço.

 

>>Ganiçando...

- como cusco que levou água fervendo pelo lombo .

 

>>Mais gasto...

- que fundilho de tropeiro.


>>Gordo e lustroso...

- como gato de bolicheiro.

- como cusco de cozinheira.

 

>>Mais Gordo..
- que noivo de cozinheira.

 

>>Mais gostoso...

- que beijo de prima.

>>Mais grosso...

- que nem toco de açougue.

- que dedo destroncado.

- que parafuso de patrola.

- que papel de enrolar prego.

- que mandioca de dois anos.

- que rolha de poço.


>>Mais grudado...

- que bosta em tamanco de leiteiro.

 

>>Mais informado...

- que gerente de funerária.

- Alma inquieta ...

- como galho de sarandi tocado pelo vento.

 

>>Mais intrometido...

- que piolho na costura.


>>Judiado...

- como filhote de passarinho em mão de piá.

 

>>De alma leve...

- como um passarinho.

 

>>Mais ligeiro...

- que enterro de bexiguento.


>>Liso

- como sovaco de santo.

 

>>Louco...

- como galinha agarrada pelo rabo.

 

>>Mais magro...

- que guri com solitária.


>>Maldoso...

- como petiço de guri.

- que rato de igreja.

- que sorro de grota.

Mais medroso...

- que velha em canoa.

- que cascudo atravessando galinheiro.

 

>>Mais metido...

- que merda em chinelo de dedo.

- que dedo em nariz de piá.

 

>>Nervoso...

- como potro com mosca no ouvido.

- como gato em dia de faxina.


>>Mais nojento...

- que mocotó de ontem.

>>Pacensioso

- como gato de bolicheiro.

 

>>Parado

- que nem água de poço .

 

>>Mais perdido...

- que peido em bombacha.

- que cusco em procissão.

- que cego em tiroteio.


>>Perfumado...

- como mão de barbeiro.

 

>>Pior...

- que jacaré sem lagoa.

- que cusco que caiu do caminhão da mudança.

 

>>Quente...

- como frigideira sem cabo.


>>Rebola mais...

- que minhoca nas cinzas.

 

>>Sabido...

- como sorro velho.

 

>>Seca...

- como tiro de 12 cano-serrado.


>>Sério...

- que nem defunto.

- feito delegado em porta de baile.

- que nem guri cagado.

- como guri que examina galinha para ver se tem ovo.

 

>>Sincero...

- como vaca pro touro.

 

>>Sofrendo...

- como joelho de freira na Semana Santa.


>>Sólita...

- como galinha em gaiola de engorde.

 

>>Mais sujo que...

- pau de galinheiro.

 

>>Sutil...

- como gato que vai pegar passarinho.


>>Tradicional...

- como embalagem de Maisena.

- como fórmula de Minâncora.

 

>>Tranqüilo...

- que nem cozinheiro de hospício.

- como água de poço.

- como capincho em taipa de açude.

 

>>Mais vagaroso...

- que tropeiro de lesma.


>>Mais virado...

- que bolacha em boca de velha.

 

>>Mais à vontade...

- que bugio em mato de boa fruta.

 

>>Vivo...

- como cavalo de contrabandista.


>>Mais velho...

- que andar de pé.

 

>>mais apagado...
- que fogão de tapera

 

>>branco...
- comoaipim descascado


>>mais caro que...
- argentina nova na zona

 

>>cara amarrada...
- como pacote de despacho

 

>>chorão como..
- terneiro novo


>>doído...
- como guasqueaço em testa de negro, em comércio de carreira

 

>>se espalhou...
- como como pó de mangueira em pé de vento

 

>>falso feito..
- cobra engambelando sapo


>>firme...
- que nem palanque em banhado
- que nem prego em taquara
- feito prego em polenta
- como beliscão de ganso

 

>>leve feito...
- pisada de gato

 

>>mais medroso ...
- que velha em canoa
- que cascudo atravessando galinheiro

 

>>vermelho...
- feito pitanga madura


Danças Gaúchas

     Os ritmos executados no baile devem ser originais que preservem a autenticidade do folclore gaúcho de forte influência histórica européia e latino-americana. Quanto ao fandango antigo no Rio Grande do Sul as mais populares são: anu, balaio, queromana, tatu e tirana. No fandango atual são executados preferencialmente os seguintes ritmos do folclore vigente: marchas, vaneras, vanerões, xotes, milongas, rancheiras, polcas, valsas, chamamés e bugios.
 

     Os ritmos de fandango são musicalmente ricos e variados permitindo evoluções belas e harmoniosas na dança, cada ritmo dança-se de um jeito e cada ritmo tem a sua característica própria de ser dançado. Sendo assim recomenda-se que o conjunto musical de fandango execute todos dos ritmos de forma variada e criteriosa sem distorcer um determinado ritmo acelerando-o para um efeito mais ágil e nem repetindo excessivamente o mesmo ritmo musical caindo na mesmice ou ainda descaracterizando-o quanto a sua forma original. Esses ritmos apresentam as seguintes características históricas:


Marcha Polonaise

“A Polonesa ou Polonesie é dança originária da Polônia que foi mencionada após o ano de 1675. Essa dança de conjunto teria se originado de uma marcha triunfal de antigos guerreiros poloneses. Nas áreas de colonização italiana e alemã, no Rio Grande do Sul, a Polonesie continua sendo a dança solene de abertura de bailes ou ponto culminante de festividades como: Festa do Rei do Tiro e Kerbs”.


Marcha

“No Brasil, teve origem nos blocos carnavalescos de rua, pois além de peças musical e coreográfica relacionada com o carnaval, o nome indica um dos passos do antigo 'Quicumbis' (Dança de Igreja)”.


Valsa

“Sua origem mais próxima vem das danças rústicas alpinas (Austria), destacando-se o Lãndler. Do campo a Valsa foi para as cidades, notabilizando-se, inicialmente em Viena. Expandiu-se por toda a Europa, porém, na França a Valsa assumiu feições próprias (lenta, lânguida, sentimental). No Brasil a Valsa foi cultivadíssima no século passado, desde o nível popular até o erudito”.


Rancheira

“É uma versão nacionalizada da Mazurca (Dança de origem polonesa) na Argentina, Brasil e Uruguai. ... No estilo da fronteira dança-se a Rancheira bem marcada com batida de todo o pé no chão, assemelhando-se assim os movimentos dos pares a um valseado. O gaiteiro quando toca segura mais a nota musical, dando mais extensão à nota. Liga (Legatto = ritmo constante). ... Na serra difere do estilo fronteiriço apenas na forma de executar, pois dança-se bem rápido e puladinho com acentuada marcação de todo o pé no tempo forte da música (1º tempo). O gaiteiro serrano faz uma sequência com interrupção da nota musical. (Stacatto = ritmo alternado)”.


Vanera

    A Vanera, Vaneira ou ainda Havaneira tem origem na Habanera, ritmo cubano com o nome em referência a capital Havana (La Habana). É uma aculturação dos ritmos afros pelos cubanos, entretanto exportadas aos salões europeus especialmente os de Paris e Madri, foi dança de sucesso muito apreciada, difundida e preferida por compositores franceses e espanhóis. A Vaneira chegou no Brasil por volta de 1866 influenciando ritmos como o samba-canção brasileiro, e outros do fandango gaúcho tais como o vanerão, o limpa-banco e o bugio.
    No Rio Grande do Sul a Vanera é um ritmo musical de andamento moderado, a coreografia é de dois passos para um lado (pé esquerdo) e um passo para o outro lado (pé direito), observando-se dois tempos musicais para ambos os lados.
    A Vanera conquistou um espaço privilegiado entre os conjuntos musicais de fandango, sendo hoje, presença marcante e obrigatória em qualquer baile tradicional, praticamente sendo o ritmo básico do baile ou o mais executado no evento.


Vanerão

“... é uma música de andamento rápido, mas com acompanhamento e características típicas da Habanera”.
Bugio
    O nome desse ritmo e os movimentos excecutados na dança são inspirados em um tipo de macaco muito astuto e popular que habita as regiões de matas no sul do país, o bugio.
    É  um autêntico ritmo gaúcho, criado e desenvolvido no Rio Grande do Sul, diferente dos demais que mesmo com suas adaptações são das mais diversas origens (geralmente européias). Não sabe-se ao certo mas, alguns dissem que o bugio surgiu de um erro do gaiteiro, outros dissem que foi da tentativa de imitar o ronco do bugio usando o jogo de fole da gaita.
    Era dança da ralé (camada inferior da sociedade) comum nos bailes ´Bragados´ da região rural missioneira e nos meretrícios, mas tornou-se bastante popular passando a ser aceita até mesmo nas festas da alta sociedade. Atualmente o Bugio tem grande aceitação no meio tradicionalista e na maioria das festas populares do Rio Grande do Sul especialmente nas regiões das missões, no planalto médio e nos campos de cima da serra, mas parece perder espaço entre grupos musicais, mesmo sendo a dança de salão mais autêntica e gaúcha entre todas as coreografias e ritmos executados no baile tradicional.
    A coreografia lembra os movimentos do macaco, dois passos para cada lado, cada compasso é binário e equivale a dois movimentos para cada lado, sendo que na passagem do segundo para o terceiro movimento no momento em que é dado o jogo de foles da gaita, os pares dão um pulinho lateral.

Xote

“Segundo Baptista Siqueira, a Schottisch entrou no Brasil no início da década de 1850, difundindo-se pelo país. O nome da dança (é palavra alemã que significa escocesa) é enganoso, pois conforme o Grove´s Dictionary of Music and Musicians (5ª ed. 1955), do ponto de vista moderno é que essa dança nada tem a ver com a Escócia. É uma dança de procedência francesa com nome escocês. O compasso do Schottisch é binário ou quartenário e o andamento é rápido”.
Milonga
“Dança urbana de Buenos Aires, da mesma geração do Tango, mas com melodia e ritmo brejeiro. O sentido do termo provém da língua ”Bunda” da República dos Camarões, (Melunga = palavra, o plural é Milonga)”.
Chamamé
“Para o folclorista argentino Joaquim Lopez Flores, essa dança correntina (Província de Corrientes) teria nascido justamente da velha “Chimarrita” do Rio Grande do Sul (introduzida pelos açorianos)”.

Polca
“Dança de compasso binário em andamento vivo, originou-se no início do século passado, na Boêmia, fez sucesso na França e difundiu-se daí para outros países, inclusive o Brasil. Há vários tipos de modas coreográficas que deram a denominação à Polca, One Step, Polquinha, Limpa-banco, Arrasta-pé, Gasta-sola, Serrote, Polca das Damas (a moça tira o rapaz para dançar), Polca de Relação ou Meia Canha (os pares dizem versos um para o outro)”.

Criação da Carta de Princípios

Bravos homens idealizaram um movimento de extrema grandeza cultural, mas não imaginavam que suas idéias fossem tão bem aceitas e difundidas rapidamente, que o fizesse grandioso também em número. Isto nada mais fez do que confirmar quão glorioso foi esta idealização. Todo crescimento rápido pode ter conseqüências desastrosas. Além disso, o governo e o exército tinham naquele grupo de jovens certa desconfiança, pois exaltavam a Revolução Farroupilha, seus mentores e conseqüentemente o “20 de setembro”, levando os poderes constituídos a conclusões que pendiam para o lado revolucionário e separatista.

 

          Foi então que Glaucus Saraiva, considerado extremamente inteligente e com a mente de certa forma avançada para a época, se sensibilizou e, por ser muito reservado, fez de forma solitária um documento que, depois de concluído, foi apresentado como sugestão a ser seguido pelos tradicionalistas.
 

Tal documento foi de extrema importância, fazendo com que o exército o enxergasse com outros olhos, percebendo que o movimento queria andar lado a lado com os governantes. O Conselho Coordenador reconhecendo sua importância para o bom prosseguimento do movimento, decidiu oficializar a Carta de Princípios, que foi aprovada no 8º Congresso Tradicionalista, realizado na cidade de Taquara, de 20 à 23 de outubro de 1961, no CTG Fogão de Chão. A partir deste momento ela começou a ser vista como uma lei a ser cumprida, causando uma certa revolta nos gaúchos, que não aceitavam ser mandados, defendendo a idéia de que gaúcho é macho, não recebe ordens de ninguém e é dono de suas próprias razões.

 
           Dentro do movimento, seus efeitos foram para nortear um rumo a ser seguido, pois na época o que prevalecia eram as contradições, onde cada CTG procurava inclinar-se para seu lado, fazendo com que não existisse unanimidade.

 

            Para o bom funcionamento era necessário e de fundamental importância, um perfeito conhecimento e interpretação da mesma.
 

            Aos poucos os gaúchos foram aceitando-a e começaram a perceber que ela só ajudaria o movimento a crescer e que seu objetivo não era obrigar e sim orientar. Hoje essa carta integra o Regulamento do Estatuto do MTG e é a primeira diretriz aprovada no tradicionalismo. Até os dias de hoje a Carta de Princípios continua, de um certo modo, de conhecimento restrito dentro do movimento, tendo este prospecto sofrido  sensíveis   alterações nos últimos anos, devido a importância dada pelo MTG, fazendo dela assunto de trabalhos realizados, como este de hoje.
 

Seguindo as palavras do Senhor Ciro Dutra Ferreira e Vilson de Souza,  na época de sua criação um dos objetivos mais importantes foi o art. XI, que trata do respeito as leis e os poderes públicos legalmente constituídos, que fez com que o exército e o governo vissem com outros olhos aquele grupo de jovens. E o mais importante nos dias de hoje é o art. XXIX que valoriza e exalta o homem do campo. E dentro deste item salientou a  importância do surgimento dos laçadores urbanos, como exemplo, que trazem para a cidade uma parte da realidade da vida rural.

 

 Em poucas palavras podemos destacar como conclusão final que, através da difusão e preservação da nossa cultura e de nossos valores morais, temos a possibilidade de dar base a uma sociedade harmônica, colaborando assim com o bem coletivo, o progresso e a evolução de um povo que tem como ideal os princípios de Liberdade, Igualdade e Humanidade.


Danças Gaúchas, suas histórias e origens

Búgio

Tem sua origem reclamada por dois municípios, que tratam de divulgá-lo através de seus festivais: São Francisco de Assis (fronteira oeste) e São Francisco de Paula (região serrana) se consideram pais do Bugio. O processo de criação do Bugio foi inspirado no "ronco" do bugio, macaco que habita nossas matas, correndo sério risco de ser extinto. Da imitação desse ronco reproduzido pelo acordeon foi criado um novo ritmo que teria em São Chico de Assis, São Chico de Paula e de toda a região serrana um solo fértil para seu desenvolvimento. A maneira de dançar o Bugio também é inspirada nos movimentos desse macaco.

Chamamé

Chegou no Brasil pelo Rio Uruguai e sendo difundida pelas rádios argentinas no interior do Rio Grande do Sul, dando a conhecer valores como Ernesto Montiel e Tarragó Ros (pai) e muitas outras "legendas do Chamamé". Na realidade "el Chamamé" foi um feliz "contrabando" que chegou para fazer parte de nossa cultura. A interpretação do chamamé pode ser a solo ou em duo, sendo essa modalidade vocal mais apreciada. Podendo ser dançado aos pares ou sapateado em sua origem, o chamamé no Rio Grande do Sul se diferenciou na maneira que os bailadores daqui deram a este ritmo. Importante ressaltar é a versatilidade deste gênero, que vai desde um calmo chamamé- canção em tom maior ou menor, a um chamamé bem bagual em andamento bastante rápido quase uma polca. Vinculado ao chamamé está essa manifestação denominada "Sapukay" que nada mais é que o grito dado espontaneamente pelos chamameceros no momento em que lhes dá gana ou no final de cada tema.

Chamarrita

É um ritmo de origem açoriana e madeirense (arquipélagos portugueses no Atlântico). É executado em tom maior, com raras exceções em tom menor. A Chamarrita está entre o ritmos comuns às três pátria gaúchas: Argentina, Uruguay e Brasil. No Rio Grande do Sul, a Chamarrita está bastante identificada com costumes e temáticas campeiros. Além da Chamarrita mais galponeira, temos as versões mais executadas pelos conjuntos de baile, adaptadas a um ritmo mais bailável. A Chamarrita também é conhecida como Chamarra ou Chimarrita.

Milonga Arrabalera

Como o próprio nome diz: Milonga del "Arrabal" (urbana). Esta é a Milonga que mudou-se do campo para cidade, transformando-se em baile, muito apreciada nos bailes riograndenses. Por ser uma milonga de origem urbana, a temática estende-se desde o campo até a cidade, falando de temas de amor e cotidiano. A execução ao violão, já não é arpejada como a Milonga mas rasgueada como no Tango dando assim um ar mais bailável. Milonga "Milonga ritmo que pulsa no coração do Pampa. A palavra Milonga é de origem Bantú (povo que se localiza entre o Congo, parte da Angola e Zaire). Na África designa-se "Milongo" como um feitiço de amor, que as moças utilizam para atrair seus pretendentes. Costuma-se dizer: - Essa menina me fez um Milongo! A apresentação da Milonga em versos é feita de várias maneiras, sendo elas em quartetos, sextilhas, oitavas e décimas. Voltando à origem do ritmo da milonga nos deparamos com a célula rítmica encontrada em Cuba na "Contradanza Francesa", na "Danza Cubana" e na "Habanera". A mesma célula rítmica também chamada "Ritmo de Tango" ou "Tango Congo".

Rancheira

Este ritmo bem crioulo (autêntico) em compasso 3/4 encontra paralelo em vários outros gêneros Latino Americanos deste estilo, tais como o "Pericón" uruguaio ou o "Joropo" venezuelano. Outra característica que o aproxima da América Hispânica é o "Sapateado" que é uma das maneiras de se dançar a Rancheira. A maneira mais comum de se dançar a Rancheira é a marcação dos pares do ritmo como pequenos pulinhos ou "puladinho". Outra modalidade bastante apreciada pelos bailadores á a Rancheira de Carrerinha em que os pares alinhados executam várias coreografias em momento de grande descontração. Como em outros gêneros bailáveis do RGS a gaita (acordeon, cordeona) tem papel de destaque, sendo a solista principal e contando coma participação do violão ou gaita a meio do tema.

Rasguido Doble

Juntamente com o Chamamé, o Rasguido Doble é outro gênero que nos vem "contrabandeado" do litoral argentino, toda essa região compreendida entre os rios Uruguai e Paraná abrangendo províncias como Corrientes, Missiones e Santa Fé. O Rasguido Doble é um gênero bem diversificado. Pode ser executado de maneira bem cadenciada deixando a melodia fluir lentamente ou mais ligeiro. O nome Rasguido refere-se ao "rasgueado" violão que vai dar o acompanhamento necessário para sua parceria, a cordeona (acordeon), soltar-se em inspiradas melodias e acordes, sendo o Rasguido Doble cantado ou instrumental. Os principais responsáveis por trazerem este ritmo musical para as terras Riograndenses foram o missioneiros, cantores e guitarreirros como Noel Guarany, Cenair Maicá e Luís Carlos Borges, que sempre incluíram em seus repertórios vários Rasguidos como "El Rancho y la Cabicha", "Puente Pexoa" e "El Cosechero", este último do criativo compositor Rámon Ayala, da província de Missiones.

Vanera

A origem da Vanera é no ritmo cubano Habanera, que é como era grafado o ritmo. Da Habanera para atual Vanera, várias modificações foram feitas, na grafia e no andamento bem mais rápido, para se tornar bailável. Ao longo de mais de três décadas, os conjuntos de baile gaúchos (fandangos) vêm desenvolvendo com sua experiência e criatividade vários padrões rítmicos em seus instrumentos típicos: acordeon, guitarra, baixo, bateria e pandeiro. Quer em suas apresentações ao vivo ou em suas gravações. A Vanera conquistou um espaço privilegiado nos bailes gaúchos, sendo hoje, presença marcante e obrigatória em qualquer Fandango que se preze.

Vanerão

Também conhecido como limpa banco, tem o andamento mais rápido do que a Vanera. O Vanerão presta-se para o virtuosísmo do gaiteiro de gaita piano ou botonera (voz trocada), sendo assim muitas vezes um tema instrumental. Quanto a forma musical, o vanerão pode ser construído em três partes (rondó), utilizado em ritmos tradicionais brasileiros como o choro e a valsa. Quando cantado, dependendo do andamento e da divisão rítmica da melodia, exige boa e rápida dicção por parte dos intérpretes. O Vanerão com sua vivacidade exige bastante energia, tantos dos músicos, como dos bailadores de fandango.

Xote

O Xote gaúcho tem origem no 'schotis' europeu e sofreu aqui algumas mudanças que são naturais a qualquer manifestação cultural que tenha migrado de um continente a outro com características distintas, porém sem perder a essência de seu precursor europeu dotado de inspiradas melodias. É um dos poucos ritmos de andamento quaternário que se tem aqui no RGS, sendo que a melodia está em divisão de colcheias pode em certas partes dobrar para semi colcheias, o que serve para os executantes demonstrarem todo seu virtuosismo, principalmente o acordeon, o violão ou guitarra. Por seu andamento médio, o xote dá condições a que os pares dancem de maneira figurada realizando as mais variadas coreografias. O Xote com sua vivacidade e alegria é um gênero, cantado ou instrumental indispensável nos bailes gaúchos.

Dança dos Facões

Danças de esgrima, em que, ao invés de porretes ou bastões, se usam espadas ou facas de verdade, são registradas na Ásia, na Europa Oriental, na África muçulmana, em regiões onde se encontram aglomerados predominantemente masculinos. Cada dançarino mune-se de dois facões, afiados, e as evoluções exigem destreza, acuidade, reflexos rápidos.

Chula

A Chula Dança muito difundida em Portugal e também dançada pelos Açorianos. A Chula caracteriza-se pela agilidade do sapateio do peão ou diversos peões, em disputas, sapateando sobre uma lança estendida no salão. A chula era dançada apenas por homens e sempre em desafio. Citada como espécie de jogo típico dos gaúchos por Nicolau Dreys em seu livro "A notícia descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul" é, provavelmente, originária do Minho e do Douro, do folclore português, embora alguns estudiosos relacionem-na com o Lundú ou o Baião, com relação à música.

A chula tradicional era dançada da seguinte forma: Dois dançarinos ficavam frente a frente tendo entre si uma lança de quatro metros de comprimento. Um dos oponentes executava uma seqüência de difíceis passos coreográficos indo até a extremidade oposta da lança e retornando ao seu lugar de origem. Ao segundo oponente cabia, então, repetir o passo do primeiro e fazer um mais difícil, ao que o seu oponente deveria proceder da mesma forma. Perdia a disputa aquele que saísse do ritmo, errasse o passo, perdesse o ritmo ou chutasse a lança. Ultimamente suas regras foram modificadas, adaptando a chula aos campeonatos regionais, os rodeios, mas a idéia de criatividade e difícil execução dos passos como objetivo da disputa foi mantida, o que a tem tornado o concurso individual mais procurado do meio tradicionalista. 

Malambo

O malambo é, assim como a chula, uma dança de desafio, proveniente de nossos irmãos gaúchos platinos. Existem diversos tipos de malambo, de acordo com a região platina em questão. Os mais conhecidos entre nós são o Norteño, com passos curtos e música dividida em seções de quatro compassos musicais e o Sudeño, com passos alternados um pouco mais longos e outros tão breves quanto os do Norteño. Para quem dança, o famoso papito-pá-pá" define muito bem esse estilo de malambo quanto ao ritmo.
Existem variantes dos mais diversos tipos para o malambo, sendo que uma das mais engraçadas aos olhos do público e ao mesmo tempo uma das de mais difícil execução é a simulação da doma pelo peão, onde este finge estar montando "em pêlo" um cavalo bravio, ou caballo cimarrone, e tem que se manter em cima do lombo do animal durante seu corcovo. Quanto mais agitar os braços durante a execução dos passos, maior a habilidade do "domador" em vencer o animal. Mas é claro que essa é apenas uma das variantes existentes para a dança do malambo. O malambo está presente em nosso meio tradicionalista sob a forma de apresentações de alguns grupos de dança, uma vez que não existem concursos dessa modalidade nos rodeios e festivais dos gaúchos Rio-grandenses, pelo menos por enquanto, pois a cada dia, têm sido mais incorporado ao nosso folclore, por sermos de uma cultura irmã proveniente.


Carta de Princípios do Movimento Tradicionalista Gaúcho

I. Auxiliar o Estado na solução dos seus problemas fundamentais e na conquista do bem coletivo;

II. Cultivar e difundir nossa História, nossa formação social, nosso folclore, enfim, nossa Tradição, como substância basilar da nacionalidade;

III. Promover, no meio de nosso povo, uma retomada de consciência dos valores morais do Gaúcho;

IV. Facilitar e cooperar com a evolução e o progresso, buscando a harmonia social, criando a consciência do valor coletivo, combatendo o enfraquecimento da cultura comum e a desagregação que daí resulta;

V. Criar barreiras aos fatores e idéias que nos vêm pelos veículos normais de propaganda e que sejam diametralmente opostos ou antagônicos aos costumes e pendores naturais do nosso povo;

VI. Preservar nosso patrimônio sociológico representado, principalmente, pelo linguajar, vestimenta, arte culinária, formas de lides e artes populares;

VII. Fazer de cada CTG um núcleo transmissor da herança social e através da prática e divulgação de hábitos locais, noção dos valores, princípios locais, reações emocionais, etc.; criar em nossos grupos sociais uma unidade psicológica, com modos de agir e de pensar coletivamente, valorizando e ajustando o homem ao meio, para a reação em conjunto frente aos problemas comuns;

VIII. Estimular e incentivar o processo aculturativo do elemento imigrante e seus dependentes;

IX. Lutar pelos direitos humanos de Liberdade, Igualdade, e Humanidade;

X. Respeita e fazer respeitar seus postulados iniciais, que tem como característica essencial a absoluta independência de sectarismo político, religioso e racial;

XI. Acatar e respeitar as leis e os poderes públicos legalmente constituídos, enquanto se mantiverem dentro dos princípios e do regime democrático vigente;

XII. Evitar todas as formas de vaidade e personalismo que buscam no Movimento Tradicionalista veículo para projeção em proveito próprio;

XIII. Evitar toda e qualquer manifestação individual ou coletiva, movida por interesses subterrâneos de natureza política, religiosa ou financeira;

XIV. Evitar que os núcleos tradicionalistas adotem nomes de pessoas vivas;

XV. Repudiar todas as manifestações e formas de exploração direta e indireta do Movimento Tradicionalista;

XVI. Prestigiar e estimular quaisquer iniciativas que, sincera e honestamente, queiram perseguir objetivos correlatos com os do Tradicionalismo;

XVII. Incentivar em todas as formas de divulgação e propaganda, o uso sadio dos autênticos motivos regionais;

XVIII. Influir na literatura, artes clássicas e populares e outras formas de expressão espiritual de nossa gente, no sentido de que se voltem para os temas nativistas;

XIX. Zelar pela pureza e fidelidade dos nossos costumes autênticos, combatendo todas as manifestações individuais ou coletivas, que artificializem ou descaracterizem as nossas coisas tradicionais;

XX. Estimular e amparar as células que fazem parte de seu organismo social;

XXI. Procurar penetrar e atuar nas instituições públicas e privadas, principalmente nos colégios e no seio do povo, buscando conquistar para o Movimento Tradicionalista Gaúcho a boa vontade e participação dos representantes de todas as classes e profissões dignas;

XXII. Comemorar e respeitar as datas efemérides e vultos nacionais e particularmente o 20 de setembro, como data máxima do Rio Grande do Sul;

XXIII. Lutar para que seja instituído, oficialmente, o Dia do Gaúcho, em paridade de condições com o Dia do Colono e outros "Dias" respeitados publicamente;

XXIV. Pugnar pela independência psicológica e ideológica de nosso povo;

XXV. Revalidar e reafirmar os valores fundamentais da nossa formação, apontando às novas gerações rumos definidos de cultura, civismo e nacionalidade;

XXVI. Procurar o despertar da consciência para o espírito cívico de unidade e amor à Pátria;

XXVII. Pugnar pela fraternidade e maior aproximação dos povos americanos;

XXVIII. Buscar, finalmente, a conquista de um estágio de força social que lhe dê ressonância nos Poderes Públicos e nas Classes Riograndenses, para atuar real, poderosa e eficientemente, no levantamento dos padrões morais e de vida de nosso Estado, rumando, fortalecido, para o campo e o homem rural, suas raízes primordiais, cumprindo, assim, sua destinação histórica em nossa Pátria.


Manual das Danças de Fandango Gaúchas

Cada época e cada povo só dança as danças que refletem seu espírito. O espírito das danças gaúchas é o espírito do lar, da fidalguia e de respeito à mulher. Através da danças o gaúcho extravasa toda a sua teatralidade e desenvolve sua identidade espiritual.
     As danças a seguir apresentadas são gaúchas não porque tivessem se originado inteiramente no ambiente campeiro, mas porque o gaúcho recebendo-as de onde quer que fosse, lhes deu música, detalhes, colorido e alma nativa.


: : Giro ou Giro-Saudação : :


     Após o rapaz convidar a moça para dançar, oferecendo-lhe um lenço ou sua mão, ele a conduz até o lugar onde iniciarão a dança.
     Chama-se giro-saudação ou, simplesmente, giro, o ato pelo qual a moça, tomada pela mão direita de seu companheiro, realiza uma volta inteira em torno do próprio corpo ( girando sobre a ponta do pé esquerdo ou executando passos ), sob o braço esquerdo.
     No preciso momento em que a moça completa a volta, o par solta-se das mãos e efetua um respeitoso cumprimento: a mulher realiza uma pequena flexão de joelhos e o homem inclina levemente a cabeça ao mesmo tempo que torna a guardar, entre o cinto e a camisa, o pequeno lenço utilizado para convidar sua companheira para a dança.


: : Marcha : :


     A marcha assim como o samba foram produtos do carnaval.
Segundo Paixão Côrtes e Barbosa Lessa em sua obra "Danças e Andanças da Tradição Gaúcha " diz o seguinte: "Marcha além de peça musical e coreográfica relacionada com o carnaval (marchinha carnavalesca) o nome indica um dos passos do antigo Quicumbis".

     Os Passos de Marcha são basicamente 1 e 1 e são dados alternadamente, com um pé e outro, um passo para cada tempo da música, como se o dançarino marchasse ou caminhasse. Podem ser dados para a frente, para trás ou em curva. Quando pequenos passos de marcha são dados em curva quase no mesmo lugar, fecham um giro.


: : Polca : :


     Esta dança européia, proveniente da Boêmia, tornou-se famosa e dominou os salões na segunda metade do século XIX. No Rio Grande do Sul era tipicamente tocada com o acordeom e serviu para dançar vários tipos de modas coreográficas, entre elas:
     Polquinha, Limpa-banco, Arrasta-pé, Polca das damas, Polca das cadeiras, Polca do bastão, Polca de relação ou meia canha.

     O passos da polca podem ser dirigidos para frente e para trás, para os lados, em curva ou em diagonal.
     A única característica de sua execução é a pausa entre um passo-de-polca e outro passo-de-polca.



: : Rancheira : :


     Derivada da Mazurca, é uma dança Polaca que chegou à França no século XIX, lá ganhou algumas características e assim chegou ao Brasil, Argentina e Uruguai. No Rio Grande do Sul, em certas regiões a Rancheira é denominada "Terol", mas não há diferença musical entre as duas.

     Os Passos de Rancheira são compostos de dois passos-de-juntar, um para a esquerda e outro para a direita.

Passo-de-juntar
- para a esquerda: pé esquerdo dá um passo para a diagonal esquerda e o pé direito vem se juntar a ele.
- para a direita: pé direito dá um passo para a diagonal direita e o pé esquerdo vem se juntar a ele.

     No final do passo-de-juntar à esquerda faz-se uma marcação no lugar, de toda planta do pé que primeiro se afastou e a seguir faz-se o novo passo-de-juntar `a direita com nova marcação.
     E assim sucessivamente.
     Um passo de Rancheira corresponde a seis movimentos.

RANCHEIRA DA FRONTEIRA
     Dança-se a rancheira com passos bem marcados, isto é, a marcação é feita com forte batida de toda planta do pé e isso faz com que o corpo gingue de um lado para o outro.

RANCHEIRA DO LITORAL
     Dança-se o Terol, com passos rápidos e largos: uma série de passos para a frente e uma série de passos para trás. É dançado puladinho, bem rápido e faz-se a marcação com forte batida de toda planta do pé.
     Tem-se a impressão de que o peão está empurrando violentamente a prenda e de que esta, em seguida, passa a empurrá-lo.
Obs.: Durante a execução da dança, os peões podem vir a sapatear.


: : Chote : :


     Trazido pelos imigrantes alemães (1824), o "schottisch" , enraizou-se no Brasil, por volta de 1850, juntamente com a Polca e a Valsa. Em Paris abriu caminho para a renovação da danças de pares enlaçados. Nota-se em seu ritmo um certo parentesco com o da Polca, mas um pouco mais lento. O Chote coincidiu com a difusão da gaita como instrumento musical e se tornou a dança de pares enlaçados preferida do gaúcho, podendo também ser dançado "se largando" em chotes afigurado.


CHOTE TRADICIONAL
     F az-se através de três movimentos iniciados com o pé esquerdo (primeiro movimento), que é dado em dois tempos da música (um compasso), portanto um pouco lento e largo, os segundos e terceiros movimentos são efetuados um para cada tempo da música, sendo assim mais rápidos e curtos, dentro do ritmo do Chote.

CHOTE AFIGURADO
     O peão alcança sua mão direita à mão esquerda da prenda, sendo que os dois estão postos face a face.
     Peão realiza 3 passos de marcha para a esquerda, movimento de ida e o quarto passo fica elevado no ar. (peão e prenda podem realizar uma batida de pé no chão, mas este logo deverá se elevar, não terão o peso do corpo, pausa musical). O movimento de retorno é iniciado pelo pé que está elevado (quarto movimento), repetindo a mesma marcação da ida.

     A figura do chote afigurado é feita ao se iniciar a nova marcação para a esquerda do peão. O número de figuras que podem ser executadas é praticamente infinito, dependendo da criatividade dos dançarinos.



: : Vaneira : :


     Tem sua origem na habanera, ritmo dançado pelos negros de Cuba e Haiti. Foi exportada para a Espanha e de lá veio para o Brasil, fazendo muito sucesso depois da Polca, Chote e da Mazurca.
No Rio Grande do Sul, chamou-se Vaneira e com alterações de andamento na execução, surgem diversas variantes: vaneirão, vaneirinha, vaneira grossa...
     É dançada uma pouco mais rápido que o chotes e mais lenta do que a vaneirinha e o vaneirão.

     Os movimentos dos passos de vaneira são idênticos ao do chote tradicional, cujos pares dançam enlaçados e não fazendo as figuras.


: : Vaneirinha : :


     É uma variante da vaneira criada pelos gaiteros riograndenses.
Seu ritmo é executado um pouco mais rápido que a vaneira e mais lento que o vaneirão.

     Os passos da vaneirinha são idênticos aos da vaneira, dançados um pouco mais rápidos.


: : Vaneirão : :


     É uma variante da vaneira. Sua música é executada num rítmo rápido que é o que o distingue da vaneira e da vaneirinha.

     Os passos de vaneirão sãoiguais aos passos da vaneira, apenas com andamento mais rápido.



: : Bugio : :


     O Bugio é essencialmente brasileiro. Nasceu no Rio Grande do Sul, nos braços do gaiteiro Wenceslau da Silva Gomes, conhecido como Neneca Gomes, nas serras do Mato Grande, distrito de São Francisco de Assis em 1928. Neneca com uma gaita de botão começou a imitar o som emitido por um macaco, conhecido como bugio. Nasceu o ronco do bugio.

     O tema desenvolveu-se mais em função da dança, tendo por inspiração o caminhar do Bugio. Foi considerada como dança de pessoas de baixo nível.
Hoje, seccionadas os aspectos sensuais, é muito executada nos bailes tradicionalistas.

     O Bugio foi incorporado ao repertório musical do Rio Grande do Sul e teve inúmeras gravações, sendo que em 1955 os Irmãos Bertussi levaram o primeiro Bugio ao disco, gravando "o casamento da Doralícia".

     Quanto aos passos do Bugio, sua movimentação é idêntica a da vaneira. A diferença está na passagem do segundo para o terceiro movimento do passo, onde os dançarinos dão um pulinho e tiram os dois pés do chão.
     Este movimento se dá justamente quando ocorre a puxada característica do Bugio que é o jogo que o gaiteiro faz na baixaria e com o fole da gaita, tirando um som que lembra o ronco do bugio. O bugio é dançado meio de lado, imitando o caminhar típico desta espécie de macaco.


: : Milonga : :


     Ritmo de origem provavelmente africana, com passagem pela Espanha. Há registros de seu aparecimento, na Argentina, por volta de 1870, sendo que popularizou-se também no Uruguai e Rio Grande do Sul, desrespeitando fronteiras. Caracteriza-se pela marcação no terceiro tempo da música.
Seu ritmo assemelha-se ao tango argentino.

     Passos de milonga: conhecido normalmente como o 2 e 1.

     O pé esquerdo avança para o lado esquerdo, tocando o solo (um passo).
     O pé direito avança para se juntar ao pé esquerdo, tocando o solo (um passo).
     O pé esquerdo avança para o lado esquerdo, tocando o solo (um passo).
     Pausa, durante a qual o pé direito faz a marcação, avançando para o lado direito e dando um passo. E assim sucessivamente.


: : Chamamé : :


     A polca européia sofreu modificações nos países do Prata (em especial na Argentina), passando a Ter compasso ternário e andamento mais lento. Com o passar do tempo, chamou-se "polca correntina" e após recebeu o nome guarani - chamamé - que significa "improvisação".

     O chamamé faz parte do grupo das danças de pares enlaçados, no Rio Grande do Sul foi ganhando forma, moldando-se através dos tempos.

      Os Passos do chamamé se assemelham ao passo de polca e de rancheira, apenas num ritmo um pouco mais lento.



: : Valsa : :


     Originada das danças rústicas Alpinas da Áustria; foi soberana na Europa. A valsa veio abrir caminho para uma última geração coreográfica, que chegou até nossos dias: as danças de pares enlaçados.

     Há uma hipótese de que a valsa brasileira sofreu influência da valsa francesa, ganhando aqui feições próprias.

     Tradicional: é formado por dois passos-de-juntar, dados num sentido e noutro, alternadamente. Um passo de valsa é composto de quatro movimentos, dados para um e outro lado, mas na sua forma tradicional faz-se em giro ou em curva.

     Clássico: é executado mediante três movimentos, sempre em giro, para um lado e outro. São feitos três passos em três tempos musicais, um para cada tempo.

     Campeiro: na sua execução são utilizados os dois passos acima descritos. Seu andamento é mais rápido e a sua movimentação pode ser para a frente, para trás, no lugar e em giros para um lado e outro.

Fonte: Apostila da Academia de Danças Gaúchas Calhandra de Ouro


Ave-Maria do Peão

Ao reponte do sol que descamba, o dia se aprochega do arremate

pelos campos e nos matos da querência, no revoar da bicharada voltando aos ninhos é hora de recolhimento.

 

No rancho que há no interior de mim mesmo, eu, gaúcho de fé, me arrincono e medito.

 

Despindo o poncho da vaidade e do orgulho, tiro o chapéu, apago o pito

e me achego pra uma prosa com o patrão maior.

 

Na sua presença meu sangue quente de farrapo se faz manso caudal.

Entrego-lhe minha alma, afoita de alcançar lonjuras e abrir cancha em busca do destino.

Renuncio a minha xucra rebeldia e me faço doce de volta e macio de tranco para dizer-lhe:

 

Gracias patrão por tudo que me deste, por esta querência Senhor,

que meus ancestrais regaram com seu sangue, e que aprendi a amar desde já.

 

Pelos meus parceiros desta ronda da vida sempre de prontidão para me amadrinharem

na campereada mais custosa ou para matearem comigo na hora do sossego.

 

Reparte com eles, patrão, esta fé que me deste e este orgulho pela minha querência,

ajuda patrão a manter acesa esta chama, concede sempre ao gaúcho a força no braço

e o tino prá saber o que é correto.

 

Dá-nos consciência para preservar a nossa cultura livre da invasão dos modismos,

conserve a essência e a beleza da nossa tradição.

 

E agora, com licença patrão, que vou aproveitar a olada para um dedo de prosa com Nossa Senhora.

 

Ave Maria, primeira prenda do céu, contigo está o Senhor,

na estância maior tu és bendita entre todas as prendas

e bendito é o piá que trouxeste ao mundo... Jesus.

 

Maria, mãe de Deus e mãe de todos nós,

roga pela querência e pelos gaudérios que aqui moram,

nesta hora e no instante da última cavalgada.

Amém!!!


 

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